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Década de 1920
MÁRIO LAGO – DÉCADA A DÉCADA
Texto de Isa Cambará
Década de 1920

O primário do garoto Mário Lago foi dividido entre o Colégio Santo Alberto, na Lapa, e as escolas Tiradentes e Celestino Silva. A mudança de colégio foi explicada por ele de maneira sucinta: "Parece que eu era muito levado, de vez em quando me mandavam embora da escola. Não sei o que era."

O ginásio foi no Pedro II, onde entrou em 1923. Ali, mais uma vez, testemunhou um fato histórico: a admissão das primeiras mulheres no então tradicional reduto masculino, a professora Maria da Glória Moss, de Física, e uma aluna. Para proteger a filha de eventuais investidas, o pai, diariamente, levava e apanhava a aluna pioneira na porta do colégio.

No Pedro II, ele começou a militância política. A primeira trincheira: liderar uma greve contra o uso obrigatório da caneta.

"Eu nasci inconformado, rebelde, sou vocacionalmente rebelde".

A rebeldia foi estimulada pelo avô materno, Giuseppe. Maçom, ele integrou as tropas de Garibaldi na luta pela unificação da Itália. Como a mulher, muito religiosa, não comungava das suas idéias, Giuseppe dividia o quarto com o neto. As conversas diárias acabaram sendo, na definição de Mário, "meu primeiro livro de revolta". Revolta sempre mesclada com humanismo, traço marcante da família. Uma lembrança forte era a da revolta do Forte de Copacabana, em 1922. O tio, soldado, foi designado para a tropa de contra-ataque ao forte. Mário, que tinha 11 anos, nunca esqueceu a reação da avó: "Meu filho, faça tudo para não matar um irmão seu."

Naquele mesmo ano, um outro acontecimento marcaria não apenas a cidade, mas o país: dois intelectuais, um alfaiate, um tipógrafo, um varredor de rua, um barbeiro e um padeiro – representando sete vertentes da esquerda – fundaram o Partido Comunista Brasileiro, que teria grande importância na vida de Mário.

Mas, em 1922, a atenção do garoto estava voltada para um evento que mobilizou o Brasil, as comemorações do centenário da Independência. A cidade tinha passado por mais uma transformação, com a derrubada do Morro do Castelo para abrigar os pavilhões da Exposição Internacional. Levado pelo avô, Mário viu de perto mais essa mudança da cidade.

Na abertura dos festejos, o presidente Epitácio Pessoa discursou pelo rádio, inaugurando a primeira radiotransmissão oficial, no país. O rádio fascinou o garoto, que, como tantos outros, construiu o seu: "A gente fazia o rádio numa caixa de sabonete e tinha uma pedrinha chamada galena; a gente brincava, ficava procurando até encontrar. Pra mim, foi uma magia, porque era um teatro cego. O rádio permite o sonho".

Sonho era o que não faltava na cabeça do jovem carioca. Já lia muito e, aos 15 anos, publicou o seu primeiro poema, "Revelação", na revista Fon-Fon. Desde cedo, frequentava regularmente o teatro, pois não havia censura e era comum as famílias irem acompanhadas de crianças. Mário ia com o pai, maestro respeitado, à frente de todas as revistas teatrais de sucesso. Nas coxias do teatro Recreio, conheceu um outro adolescente, também de família de artistas, de quem seria amigo por toda a vida, o ator Oswaldo Louzada, o Louzadinha.

Era um Rio tranquilo, sem calçamento na maior parte das ruas do centro. Louzada se lembra das peladas na Praça Tiradentes e das conversas de todas as noites na porta da casa de Mário, na Vila Ruy Barbosa, onde ambos moravam. Sempre havia assunto. Mario gostava de discutir um pouco do muito que lia e do que acontecia pelo Brasil e pelo mundo. Gostava também de falar sobre o clube do coração, o Fluminense, e o seu monumental estádio, em Laranjeiras, com capacidade para 20 mil pessoas.

Os dois amigos também marcavam presença nos bailes da sede nova do clube, onde Mário – alto, falante, bom dançarino – fazia um sucesso enorme junto às moças. E também junto às mais velhas, na Lapa, onde o aluno do Pedro II passava muitas tardes "gazeteando" num bordel

Namorava-se também – até mais ousadamente do que nos bailes do Fluminense - nos bondes, onde era praticada a "bolina". A prática, generalizada entre os homens solteiros, consistia em sentar-se ao lado de uma moça e roçar, de leve, a perna na dela, tendo o cuidado de manter o olhar voltado para o lado oposto, como se estivesse distraído. Se a moça não se afastasse, o rapaz tinha sinal verde para seguir em frente. Naturalmente, só jovens "avançadas" - na época, chamadas de "moças livres" – participavam de tal prática.

Nos bondes, outro sucesso eram os "reclames" de produtos, em versinhos. Esse tipo de publicidade contava com dois autores campeões, Bastos Tigre ("Veja ilustre passageiro...") e Emílio de Menezes. Este, no final da década, provocou gargalhadas na cidade, com versos em que espinafrava uma loja tradicional, a "Fazendas Pretas", que vendia exclusivamente tecidos negros. Inconformado por ter perdido um concurso para fazer um reclame da loja, mandou ver: "Se o concurso era de tretas/ por que não me preveniu?/ vai vender fazendas pretas/ lá na puta-que-o-pariu".
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